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Não há pior cegueira...



"Não há pior cegueira que a de não ver o tempo.
E nós já não temos a lembrança
senão daquilo que os outros nos fazem recordar.
Quem hoje passeia a nossa memória
pela mão são exatamente aqueles que,ontem,
nos conduziram à cegueira."


Fala do personagem: O barbeiro de Viça Longe-
 do livro:O outro pé da sereia.  Mia Couto

*Mia Couto é um escritor incrível, seus textos e poemas são intensos e profundos e nos fazem pensar. Este trecho em particular ficou comigo por um longo tempo. E quanto mais eu pensava sobre ele, mas me surpreendia, pela veracidade  que encontrei nestas poucas linhas. É preciso questionar sempre. 

Vivian Fernandes.

Para refletir...

 As ruinas de uma nação começam
no lar do pequeno cidadão.

Provérbio Africano

 Não me basta ter um sonho.
Eu quero ser o sonho.

Palavras de Ana Deusqueira
Personagem do; O ùltimo voo do Flamingo-Mia Couto

Flamingos

         
             "No verão de 1998, caminhando por uma praia do Sul de Moçambique, encontrei,esvoante sobre a areia, uma pena de flamingo.Os pescadores locais me haviam dito que , outrora, por ali ninhavam bandos de flamingos.Fazia tempo, porém, que eles não vinham.
         No entanto, os pescadores esperavam ainda a visita daqueles magros anjos do vento. Na tradição daquele lugar, os flamingos são eternos anunciadores de esperança.
            Uma inexplicável angústia me assaltou _ e se os pássaros não voltassem mais? E se todos os flamingos de todas as praias tivessem sido tragados por longínquas trevas?
            Uma antecipada saudade me concaveou o peito.Não era a simples carência dos seres. Era o definitivo da ausência dos mensageiros dos céus, esses discretos carteiros divinos."


Mia Couto- Trecho das palavras proferidas na entrega do Premio Mário António, em 12 de junho de 2001


"Só as vozes africanas autênticas sabem que o flamingo faz o sol voltar a brilhar depois de um período de trevas e opressão."


Fonte:O último voo do flamingo-Mia Couto- Ed.Companhia das letras
*Indicação da amiga Calu,do blogfractaisdecalu.blogspot.com que estou "degustando" bem devagar. É o segundo livro que leio do Mia Couto, e só posso dizer que sou apaixonada pela forma poética que ele escreve.

A Missanga...


                                         A missanga, todos a vêem.


                                               Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso, vai compondo as missangas.


                            Também assim é a voz do poeta:
                um fio de silêncio costurando o tempo.


                                                                          Mia Couto


Fonte:Livro:O fio das missangas -Mia Couto
Contos.


**Um dos meus presentes de aniversário!!
O outro é Sereia - Tricia Rayburn.


Assim também é o fio da amizade, não se vê ,mas está lá, nos ligando uns aos outros...Obrigada por tantos gestos de carinhos meus amigos!!! Vivian        

Para Ti



            Foi para ti
            que desfolhei a chuva
            para ti soltei o perfume da terra
            toquei no nada
            e para ti foi tudo


           Para ti criei todas as palavras
           e todas me faltaram
           no minuto em que talhei
           o sabor do sempre


           Para ti dei voz
           às minhas mãos
           abri os gomos do tempo
           assaltei o mundo
           e pensei que tudo estava em nós
           nesse doce engano
           de tudo sermos donos
           sem nada termos
           simplesmente porque era de noite
           e não dormíamos
           eu descia em teu peito
           para me procurar
           e antes que a escuridão
           nos cingisse a cintura
           ficávamos nos olhos
           vivendo de um só
           amando de uma só vida


           Mia Couto,
           "Raiz de Orvalhos e outros Poemas"
Fonte:citador.pt

Identidade



            Preciso ser um outro
            para ser eu mesmo


           Sou grão de rocha
           Sou o vento que a desgasta


           Sou pólen sem inseto


           Sou areia sustentando 
           o sexo das árvores


           Existo onde me desconheço
           aguardando pelo meu passado
           ansiando a esperança do futuro


           No mundo que combato morro
           no mundo por que luto nasço.


           Mia Couto,in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"


           **A primeira vez que li um texto deste escritor foi no
          blog da Eliete:  Giro de Idéias, e me encantei!!Quem não conhece o blog da Eliete recomendo uma visita!!