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Aquele foi...

               "Aquele foi um dia memorável para mim, pois provocou grandes mudanças em  minha vida. Mas acontece o mesmo com a vida de todo mundo. Imagine escolher um dia específico, e pensar em como ele poderia ter sido diferente. Pare um pouco, leitor, e pense por um momento na longa corrente de ferro ou de ouro, de espinhos ou de flores, que nunca o teria tocado, se, em certo dia memorável, o primeiro elo não se tivesse formado..."
Charles Dickens
Capítulo IX - Grandes esperanças
ed. Ladmark Bilíngue
*Com a mesma capa do filme.
*Repostagem de 2011. Já havia usado este trecho, mas até então não havia lido o livro, e devo dizer que apaixonei-me por Dickens. Recomendo a leitura deste clássico maravilhoso, pleno de vida! Depois que li, procurei o filme. Os filmes baseados em livros sempre deixam a desejar ( na minha opinião) mas gostei muito desta versão, vale à pena assistir. Tem on line:
**Clic em VK, dê play e logo em seguida pause por 5 min. Assim o filme carrega um pouco e depois roda sem trancar. Beijos! Boa semana!

O terror psicológico: O corvo - The Raven de Edgar Allan Poe


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."


Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.



E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."





Minh' alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais



Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.



Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Ela, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas.
Acima voa dos portais
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?
E o Corvo disse: "Nunca mais."



Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta,
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais."



No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."



Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."


Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranquilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.



Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso.
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."



"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
esta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: "Existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."



"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."



"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."



E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!



Edgar Alan Poe
Versão/Tradução: Machado de Assis (1883)

  


Edgar Alan Poe mestre inconteste do terror e do suspense escreveu muitos contos e poemas. Nasceu em Boston dia 19 de janeiro de 1809 e morreu em 1849.


 
 
 

*Minha paixão pela literatura fantástica começou escutando as histórias de terror/lendas/folclore que minha vó me contava nas tardes de minha infância. E como apreciadora do gênero não poderia deixar de ser fã de Poe! 
Espero que gostem do poema! 


Beijos

Mistérios no Caminho



                      Hoje trago uma sugestão de leitura apaixonante: "Mistérios no Caminho - de Berenice Koerig - da Editora: ediPUCRS", tanto pelo estilo da escritora que torna a leitura fluída e prazerosa, quanto pela profundidade do conteúdo. Um livro que nos trás um sorriso ao rosto, um calor ao coração. Através se suas páginas vamos percorrer o caminho de Compostela, vamos nos encantar com vivências de amor e fé. Nem preciso dizer que fui cativada! Vos deixo com as palavras da escritora, creio que lendo estas linhas entenderão bem o  que quero dizer.

"Que estranho rumo do meu caminho
a perseguir flechas amarelas
que apontam para o campo da estrela...
O que me fez abrir mão de ouvir o canto do sabiá
junto a minha janela enfeitada de flores
e sair procurando entre muros e pedras,
antes de o sol nascer,
o Caminho que leva a Compostela?"


Aos que acreditam sem ver para que perseverem;
Aos que que precisam ver para que se convertam; 
Aos débeis na fé para que se fortaleçam. 

" Posfácio
A inspiração
Quando peregrinei a Santiago de Compostela estimulada pela fé, em 1999, último Jacobeo do segundo milênio, não  cogitava escrever minha vivência no Caminho. Foram oitocentos quilômetros a pé desde Saint-Jean-de Port na França até a Galícia no extremo ocidental da Espanha. Na volta, decidi que aquela riquíssima experiência deveria ser compartilhada. Ocorre que, na farta literatura sobre o tema, tenho observado uma repetição quase exaustiva do que a mim também ocorreu no percurso. Não queria apenas reproduzir meus passos, mas dar um cunho evangelizador a meu escrito. Incitou-me Santiago, o Maior, que obedeceu fielmente ao Mestre, indo até os confins da terra para pregar o Evangelho. (...) Berenice Koerig

Imagem da 1ª história : 


                          Cada conto, uma história de um viajante. Uns a procura da fé perdida, outros para agradecer; uns creem, outros descrentes, enfim cada peregrino compartilha um pouco de si, nos presenteando com suas histórias.
A primeira fala de um obstetra francês, que perdeu sua fé em Deus, e é percorrendo o caminho que ele encontra um alento para o coração.
O livro ainda conta com belas aquarelas a cada nova história.

 **Para saber o preço e formas de compra deixo o link da cultura:
 http://www.livrariacultura.com.br/Produto/LIVRO/MISTERIOS-NO-CAMINHO/5099120

O livro também pode ser adquirido na Puc.
*Fotos minhas, feitas pelo celular.

É loucura...




"É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Entregar todos os teus sonhos porque um deles não se realizou, perder a fé em todas as orações porque em uma não foi atendido, desistir de todos os esforços porque um deles fracassou. É loucura condenar todas as amizades porque uma te traiu, descrer de todo amor porque um deles te foi infiel. É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo. Espero que na tua caminhada não cometas estas loucuras. Lembrando que sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim um recomeço!"



Antoine de Saint-Exupéry