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O poder do Perdão



           "Assumir um erro repudiá-lo e demostrar arrependimento, de um lado, e ser capaz de afastar a sensação de injustiça causada por uma ofensa, do outro-eis a equação de uma das atitudes morais mais nobres e emocionalmente complexas já criadas pela civilização." Ana Claudia Fonseca

             "Para as ofensas, a maior arma é o esquecimento.É no esquecimento que se igualam vingança e perdão", escreveu Jorge Luís Borges, sobre Jó, o mais fervoroso protagonista do Velho Testamento

Fonte:Revista, Veja julho 2010

O Presente não Existe


           Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo- o passado, o presente e o futuro-, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginamos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos.Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstrata. O presente não é um dado imediato da consciência. Sentimo-no deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo:"Detém-te!És tão belo...!",Como dizia Goethe. O presente não se detém.
Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo.O presente contém sempre uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

       Jorge Luís Borges, in "Ensaio:O Tempo"
Fonte:citador.pt

Os Justos

                
Um homem que cultiva o seu jardim,como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar o mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.


   Jorge Luís Borges, in "A Cifra"
   Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Fonte:citador,pt